Historiografia do Sobrenome


Aproximadamente até 800 d.C., o povo europeu usava apenas um nome para identificar cada indivíduo. Isto ainda acontece entre alguns povos primitivos da atualidade. À medida que a população crescia, tornou-se complicado viver numa aldeia em que talvez um terço da população tivesse o mesmo primeiro nome e muitas vezes a mesma profissão, visto que a maioria eram agricultores.
Os sobrenomes (também chamados de segundo nome ou apelido) surgiram com o objetivo de melhor identificar os indivíduos.
Imagine se não houvesse sobrenomes, e você tivesse que achar na cidade de São Paulo um certo João, casado com Maria, filho de José e Aparecida e que trabalha como pedreiro. Seria praticamente impossível! Mesmo com o uso do sobrenome encontramos diversas pessoas com o mesmo nome.
Uma pesquisa realizada no início dos anos 90 pelo PIS (Programa de Integração Social), chegou-se ao dez nomes mais utilizados no Brasil, por ordem decrescente: José dos Santos, José Carlos da Silva, João Batista da Silva, José Francisco da Silva, Maria José da Silva, José Ferreira da Silva, José da Silva e, finalmente, Maria Aparecida da Silva.

As cinco principais fontes para o segundo nome foram: ocupação, localização (chamados toponímicos), característica pessoal ou o nome do pai (os chamados patronímicos). Citaremos alguns exemplos para melhor esclarecer este ponto.

Ocupação: Zimmermann, sobrenome alemão. Significa Carpinteiro. Outros exemplos: Schumacher (sapateiro), Taylor (alfaiate) , Maurer (pedreiro) e Schafer (tosqueador de ovelhas).

Toponímico: Roberto Carlos Braga, cantor e compositor brasileiro. Braga é uma cidade portuguesa. Outros exemplos: Silva, Oliveira, Milanesi e Modenesi.

Característica Pessoal (Alcunha):
Paulo Delgado, deputado mineiro, tem o sobrenome originário de uma família espanhola de pessoas magras. Outros exemplos: Leitão, Coelho, Salgado, Passarinho e Goulart.

Patronímico:
Inúmeros seriam os exemplos a serem citados. Ficaremos apenas com o Fernandes de origem portuguesa, que significava "filho de Fernando".. Inicialmente , os primeiros a utilizar este sobrenome eram conhecidos como “ Fulano Filius Quondam Fernandus” ou seja “ Fulano filho do senhor Fernando “, já a segunda geração, ou seja, os netos do senhor Fernando utilizavam o nome do avô como sobrenome Outros exemplos: Paoli, Rodrigues, Paula, Afonso e Martinez.

Religiosa:
A maioria dos sobrenomes de origem religiosa não possuem brasão, visto que os filhos bastardos não tinham pai legal, as mães acabavam por acrescentar um nome em devoção a algum santo católico ou símbolo religioso, as pessoas achavam que isso poderia trazer proteção e sorte. Alguns exemplos: Santos, Cruz, Sacramento, Neves e Nascimento.

Observe-se, entretanto que, para se chegar à origem do sobrenome, é necessário remontar à primeira pessoa que o utilizou e identificar claramente a língua falada na época e local onde tal pessoa residia.
Ao tempo da adoção do segundo nome, passou também a ser utilizada uma informação adicional para melhor identificar as pessoas: o escudo ou brasão de armas. As guerras representam um capítulo constante na história da humanidade. Guerras sempre existiram e os guerreiros estiveram presentes, quer nas pequenas vilas do interior, quer formando a guarda de reis e senhores feudais. Na idade média, os guerreiros usavam uma espécie de capa de metal, as armaduras, a lhes proteger, bem como um capacete ou elmo também de metal. Desta forma, tornavam-se irreconhecíveis e isto poderia gerar ataque por parte de seus próprios companheiros de batalha. Surgiu assim a necessidade de identificar suas armaduras e também seus escudos.

O modo usual de identificação era a pintura nos escudos ou armaduras. Tais pinturas representavam as atividades exercidas pelo grupo de onde eram originários os guerreiros. A presença de plantas ou animais os identificava como agricultores ou criadores de gado, por exemplo. O animal mais utilizado indubitavelmente era o leão, pois simbolizava poder e força da família.

Mas à medida que a população crescia, surgiu uma nova dificuldade. Os moradores de um mesmo feudo exerciam atividades semelhantes e tinham suas armaduras com pinturas idênticas. Foi então necessário estabelecer bases para o direito de uso de determinados escudos. As famílias mandavam esculpir um modelo do escudo, geralmente em madeira pintada com as mesmas cores das pinturas das armaduras. Tais modelos eram dispostos nas casas dos membros daquela família.

Nos casos em que havia grande disputa pelo direito de uso de determinado escudo, até lutas foram registradas pela história. Em muitos casos, os símbolos foram distribuídos entre os chefes de famílias locais, ficando estabelecido que a unidade entre eles permaneceria representada na cor de fundo. Desta forma, um sobrenome pode ser representado por uma planta típica da região, por um animal domesticado pela família ou por um animal feroz vencido por um dos varões. Posteriormente estes escudos passaram a ser gravados nos "livros de família", obra realizada por aqueles que ficaram conhecidos como heraldistas, ou especialistas na arte da heráldica. Apesar de todas as disputas para terem este ou aquele símbolo, muitas famílias acabaram por utilizar o mesmo brasão sem terem nenhum laço entre elas. Nas famílias de origem italiana tem se notado isso, muitas deles tem por brasão um leão dourado com o escudo de fundo vermelho.
Assim, de forma bem simplificada, temos a história do nascimento da heráldica, a arte ou ciência que trata dos brasões ou emblemas de família. Nosso interesse no assunto decorre da intenção de conhecermos a história de nossos antepassados.